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Preparativos de uma Morte Anunciada

— Onofre, acabei de pegar teu exame.
O médico disse que você vai morrer em uma semana.

— Hein?! O quê?!

— Você morre terça feira que vem.
Dia 25. Dia do soldado.

— Mas... que coisa horrível!

— Horrível por quê?
Melhor que morrer, sei lá, no dia do Índio.
No dia da Secretária.
No dia do Ginecologista.

— Meu Deus!
Vou morrer em uma semana e você me conta assim, na bucha, sem me preparar?

— Deixa de ser infantil, Onofre.
Você não é prato de bacalhau pra eu te preparar.

— Uma semana...
Eu estou chocado!
Se bem que...

— O quê?

— Quer saber?
De certa forma foi bom saber logo.
Assim aproveito o tempo que resta.
Vou viajar, beber e comer tudo que eu tenho direito.

— Aí é que está, Onofre.
Você vai ter que fazer dieta.

— Dieta?!

— Pra emagrecer.
O caixão que a gente tem não é seu número.
Com essa barriga, você não entra naquele ataúde de jeito nenhum.
Só entra de lado.
Você quer ser enterrado de lado, Onofre?

— Claro que não!
Mas... não dá pra trocar de caixão?

— É da loja do teu primo.
Fui do médico direto pra lá, e foi o que ele me deu.
Ele só trabalha com modelagem única e a gente não tem dinheiro pra comprar outro.

— Mas não é justo!
Tenho que fazer regime na última semana da minha vida?

— E ginástica. E cooper.
Talvez até balé, que só regime não vai dar conta dos 15 quilos que você precisa perder.
Já te matriculei numa academia.

— Mas...

— Outra coisa. Não esquece de começar a convidar as pessoas pro velório.

— Eu?!

— É, ué. Não é você que vai morrer?
Era só o que me faltava... você é que vai morrer e eu é que tenho o trabalho...
Aliás, por falar em trabalho, arranja um bico extra essa semana pra conseguir dinheiro pra pagar a dívida do mercado.

— Peraí... regime, ginástica, e agora... trabalho extra?
Eu estou doente, estou cansado!

— Deixa de frescura, Onofre.
Daqui a uma semana você vai ter tempo de sobra pra descansar.
E se eu não pagar essa dívida, o seu Joaquim disse que me mata.

— Ele disse isso?

— Disse.
E pode me matar em menos de uma semana.
E aí eu vou ser enterrada no seu caixão.
E você fica sem dinheiro pra comprar outro caixão.
E aí você não vai ser enterrado.
Vai ficar por aí, pelas ruas, em processo de decomposição.

— Meu Deus!

— Mais uma coisa.
Você vai ter que visitar a tia Augusta.

— Ah, não!
Visitar a tia Augusta não!
Estou brigado com ela, você sabe disso.

— Vai na quinta-feira. Já marquei.

— Assim não dá!
Eu, pensando que ia passar uma semana boa, tranqüila, esperando pra morrer... mas nada.
Já vi que vai ser um inferno.
E se eu não for na casa da tia Augusta?

— Ela vai se sentir culpada por não ter feito as pazes antes de você morrer.
E vai acabar morrendo de desgosto.

— E eu com isso? Não quero saber.

— Não quer saber?
Acontece que está provado que uma pessoa leva, em média, uns seis meses pra morrer de desgosto.

— E daí?

— Daí que daqui a seis meses é o casamento da tua filha.
E se a tua tia morrer, a gente vai ter que adiar o casamento.
E se a gente adiar é capaz do noivo desistir de casar.
Se ele desistir, tua filha vai ficar arrasada e pode sair por aí namorando o primeiro que aparecer na frente.
E o primeiro que aparecer na frente pode ser um drogado.
E tua filha pode virar uma drogada.
E daí para o crime e para a prostituição é um passo.
E daí ela pod...

— Chega!
Eu vou visitar a tia Augusta!

— Ótimo.

— Que mais?
O que mais você quer que eu faça nessa semana?
Já tá perdida mesmo...

— Mais nada. Só cavar sua cova pra economizar no coveiro, que coveiro está saindo pela hora da morte.

— Deixa eu anotar, senão esqueço... com tanta coisa... Cavar a cova.

— E não esquece de, no dia da tua morte, ir pro lugar do velório cedo.
Pra morrer lá mesmo... pra gente também economizar no transporte do corpo.
Vai de ônibus.

— Mas...

— De preferência atrás, agarrado no pára-choque, pra não pagar.

— É uma boa... No pára-choque.
Só uma coisa. Uma dúvida.

— Fala.

— E se, por um acaso... eu não morrer?

— Tá maluco, Onofre?
Depois desse trabalhão todo?
Nem pensa nisso!
Esquece essa possibilidade!

— É que de repente...

— De repente uma pinóia!
Vê lá, hein, Onofre?
Não vai me fazer a gracinha de aparecer no teu velório... vivo!


Escrito por: Elisa Palatnik